Gestão remodelada

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Gestão remodelada
Construtoras e incorporadoras brasileiras se mobilizam para implementar a modelagem da informação na construção. Mais do que transformar o processo de produção, o BIM trará mudanças profundas para a gestão das empresas. Descubra o que muda no seu negócio.

ILUSTRAÇÃO: Sergio colotto

Ao permitir a construção virtual dos edifícios antes que eles sejam erguidos no terreno real, o BIM (Building Information Modeling) tem prometido revolucionar a área técnica das empresas de construção no Brasil. Por meio da criação de um modelo 3D que congrega todas as disciplinas de projetos, é possível detectar antecipadamente as incompatibilidades construtivas. O modelo permite extrair quantitativos automáticos dos materiais e, integrado a informações de custos e prazos, estudar sequências construtivas, simular alternativas tecnológicas, melhorar a logística de canteiro, entre inúmeras outras possibilidades que devem mexer com a produtividade das empresas.

Embora a modelagem da informação da construção – como foi traduzido o termo BIM – esteja mais arraigada em países do hemisfério norte, algumas empresas brasileiras já começam a estudar a implantação da tecnologia. A Matec e a Método Engenharia, construtoras do segmento comercial, desde 2008 desenvolvem projetos em BIM. A Gafisa, focada no residencial, deu início em 2010 a um projeto piloto para implantar o novo processo em todos os empreendimentos da empresa até 2013. Porém, além dos benefícios técnicos, quais serão os impactos da nova forma de projetar e construir sobre o negócio das construtoras e incorporadoras?

De acordo com Maria Angélica Covelo, diretora da consultoria NGI – Núcleo de Gestão e Inovação, o primeiro – e maior – deles será a integração dos procedimentos dentro das empresas. O BIM muda a forma como se relacionam as áreas de projetos, planejamento, orçamentos e canteiro. “Hoje esses processos são sequenciais. Quando a empresa opera com o BIM, passa a fazer tudo isso quase simultaneamente”, diz Maria Angélica. “O BIM é uma simulação da realidade e essa simulação acontece do ponto de vista físico, de projeto, de custo e de prazo, tudo ao mesmo tempo”. Para a consultora, as empresas terão de fazer um esforço gerencial para mobilizar todas as equipes mais cedo e coordenar os diferentes processos paralelamente.

A modelagem do projeto em 3D reúne literalmente os projetistas num mesmo espaço, estreitando as relações e diminuindo os desvios e omissões na elaboração de projeto

Fica evidente que uma visão sistêmica do processo produtivo será chave para os profissionais envolvidos. A Gafisa, nos últimos anos, reestruturou a gestão de seus projetos justamente para permitir um olhar mais abrangente. Conforme explica Alexandre Regis de Oliveira, gerente técnico da construtora, “muitas vezes decisões eram tomadas pela área de projetos, depois de lançado o empreendimento, sem ter a visão do quanto isso impactava o custo, que já estava formatado”, diz. A fim de melhorar a integração entre as duas áreas, a Gafisa criou a figura dos donos de projeto, uma dupla de engenheiro e arquiteto que, juntos, são responsáveis pela coordenação dos empreendimentos. “Para o BIM, essa organização foi extremamente importante. A dupla tem que saber como parametrizar um objeto no projeto porque, depois, ela mesma vai precisar dessa informação no custo”, complementa o gerente.

Além de alterar a relação entre processos, o BIM modifica profundamente as etapas de elaboração dos próprios projetos, na medida em que boa parte das informações que só seriam detalhadas no projeto executivo passa a ser necessária já na concepção do empreendimento. “Normalmente no início do projeto se tem um prazo curtíssimo, e depois um prazo um pouco mais longo para o desenvolvimento do executivo. A tendência é que isso se inverta”, afirma o arquiteto Luiz Fernando Sabino, coordenador de projetos executivos da Wilson Marchi EGC Arquitetura.

No geral, a evolução do projeto deve acontecer de forma mais simultânea, mas as fases de desenvolvimento ainda não estão claras para a maioria das empresas. Na Método, a solução tem sido definir, junto com os projetistas de cada empreendimento, o que vai ser desenvolvido em cada etapa, qual é o grau de detalhamento desejado e quais serão as informações necessárias. “Isso tem que ser combinado em uma reunião para que o fluxo de informações corra bem durante todo o processo”, aconselha Joyce Delatorre, coordenadora do núcleo BIM da construtora.

Essas mudanças acabam impactando também a forma de contratação dos próprios projetistas. “Hoje nosso modelo de contratação é baseado nas etapas de projeto. Os projetistas têm um escopo definido em contrato, ou seja, os produtos que eles têm que entregar em cada uma das etapas, e eles são remunerados em função dessas entregas”, diz Maria Angélica. “À medida que essas etapas mudem, vai mudar a forma de contratá-los.” A expectativa é que todos os projetistas entrem no projeto um pouco mais cedo, porém as alternativas para o modelo de contratação ainda não estão claras, segundo os entrevistados.

 

 
 
 

 

A Matec investiu R$ 560 mil na implantação do BIM na área de projetos. Na foto, projeto de instalações em 3D elaborado pela empresa para construção de um data-center

Menos incerteza, mais possibilidades

Um dos departamentos mais impactados pelo BIM será, certamente, o de orçamentos. A extração de quantitativos do projeto, hoje feita manualmente e com margens flexíveis de erro, passa a ser feita de forma automática: uma vez que o modelo paramétrico esteja pronto, o próprio software gera a lista de materiais. Significa que o processo de orçamentação vai se tornar muito mais rápido e assertivo. Especialmente para as empresas de construção que participam de concorrências, isso vai permitir maior precisão na elaboração da proposta técnico-comercial. “Como nessas empresas a margem é muito pequena, a precisão que o BIM confere ao orçamento e ao planejamento é fundamental para a própria sobrevivência da construtora”, afirma Maria Angélica Covelo.

Mesmo para as incorporadoras, “as margens de lucro estão cada vez mais apertadas, principalmente no mercado de habitação de interesse social. Garantir que tudo vá ocorrer conforme o esperado é muito importante”, afirma Eduardo Toledo, professor doutor do departamento de engenharia de construção civil da Poli-USP. O aumento da assertividade no orçamento pode até permitir que as empresas reduzam suas reservas de contingência, ou seja, a verba reservada para cobrir possíveis desvios orçamentários. É o que espera a Gafisa, segundo o gerente técnico Ewerton Bonetti: “A empresa vai reduzir a possibilidade do erro no levantamento, vai diminuir a incerteza. Por conta disso, poderemos reduzir nosso percentual de contingência”.

Além disso, a automatização da tarefa braçal do levantamento de quantitativos vai liberar os profissionais de orçamentos para um trabalho muito mais analítico: pensar em estratégias construtivas e alternativas tecnológicas que melhorem o desempenho de cada obra. Esse é outro impacto importante do BIM: ele aumenta as possibilidades de experimentação, tanto no orçamento como na concepção do produto.

“A empresa vai conseguir fazer mais simulações da realidade e não apenas adotar uma solução porque não dá tempo de explorar outras”, afirma Maria Angélica. “Ela vai ter mais agilidade para estudar alternativas, seja de projeto, de concepção de produto, de implantação no terreno, de execução da obra etc.” A consultora acrescenta que, para as incorporadoras, essa flexibilidade pode resultar em maior agilidade nos lançamentos, até porque com os processos automatizados as equipes de concepção de produtos devem ganhar produtividade.

 

Ghafari Associates
Modelo 3-D do projeto da General Motors, nova fábrica de motores nos Estados Unidos que permitiu à equipe de projeto detectar e corrigir erros digitalmente

Na outra ponta do processo, o BIM tende ainda a diminuir o prazo atual das obras. Com a compatibilização dos projetos das várias disciplinas feita no modelo 3D, grande parte dos erros que seriam descobertos somente durante a execução é eliminada, reduzindo as chances de paralisações e atrasos. Além disso, a possibilidade de simular a sequência construtiva no modelo ajuda a tornar o planejamento mais eficiente e a otimizar a logística do canteiro.

“A obra vai andar de maneira muito mais fluida, os materiais serão entregues na hora certa, no lugar certo, é uma construção bem planejada e a tendência é que se tenha uma execução mais curta”, avalia Lucio Soibelman, professor do departamento de engenharia civil e do meio ambiente da Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos. Maria Angélica acrescenta que, do ponto de vista financeiro, a redução dos prazos é extremamente bem-vinda: “No passado não havia interesse em reduzir o ciclo, porque o fluxo de dinheiro era muito desfavorável. Hoje se vende mais rápido e, com o empreendimento vendido, o interesse maior é terminar logo a obra, principalmente se houver repasse”.

 

 
 
 

 

Structural Consultants Inc.
Comparação entre um desenho 2-D e um modelo 3-D da conexão de aço do Denver Art Museum ilustra como é muito mais fácil visualizar objetos complexos, utilizando modelagem 3-D

BIM com propósito

Apesar das boas perspectivas, algumas dessas mudanças não serão tão nítidas no curto prazo. Hoje, mesmo as poucas construtoras que já trabalham com o BIM ainda não o fazem de forma plena. Na prática, a integração entre projetos, orçamentos, planejamento e obra ainda não está completa e o mercado deve levar algum tempo para evoluir nesse sentido.

Implantar o BIM exige, antes de mais nada, gastos expressivos tanto com as licenças dos softwares e treinamento dos usuários, quanto com computadores mais potentes. A Matec investiu R$ 560 mil somente na implantação na área de projetos, envolvendo o custo da licença do software, treinamento, consultoria e as horas de trabalho dos funcionários que ficaram afastados da produção durante o treinamento. A empresa garante que o investimento se pagou apenas com as economias obtidas na verificação de interferências do primeiro empreendimento desenvolvido na plataforma. Já a Método Engenharia calcula que os gastos tenham atingido, entre 2008 e 2010, a soma de R$ 300 mil, contabilizando software, hardware e treinamento. A construtora ainda não mensurou os resultados.

Além disso, a implantação requer uma definição clara das necessidades de cada incorporadora, segundo o professor Lucio Soibelman: “O objetivo do BIM é melhorar o processo de como a empresa gerencia suas obras. E isso depende dos objetivos da empresa”. Ele cita o exemplo dos Estados Unidos, onde o principal motivo para o uso do sistema tem sido a compatibilização dos projetos, já que a maioria dos empreendimentos desenvolvidos em BIM é de grandes obras, com sistemas mecânicos, hidráulicos e elétricos complexos.

Já no Brasil, embora a compatibilização seja importante, há outras variáveis que motivam a implantação do BIM, segundo ele. “Como no Brasil se vende muito em planta, o orçamento tem que ser perfeito e por isso a extração de quantitativos é muito importante”, comenta Soibelman. Ele aponta também que, devido à necessidade de controlar a qualidade, as empresas brasileiras estão começando a padronizar seus projetos. O BIM facilita este trabalho. Existem softwares que fazem a checagem do modelo, ou seja, conferem se o projeto segue regras estabelecidas pela construtora.

Em suma, apesar das incontáveis possibilidades abertas pelo BIM, a receita da implantação não é única em cada companhia. “A empresa tem que, primeiro, encontrar um objetivo, decidir o que é importante para ela, e a partir daí definir um conjunto de softwares que vão implementar essa visão”, ensina Soibelman. “É um quebra-cabeça que se monta de acordo com os objetivos da construtora.”

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Vantagens de negócio
Saiba o que as empresas têm a ganhar ao adotar a modelagem da construção para empreendimentos residenciais e comerciaisPor Mirian BlancoUma pesquisa realizada pela McGraw-Hill Construction apurou os benefícios do BIM identificados por usuários do modelo na Europa Ocidental – notadamente França, Reino Unido e Alemanha – e nos Estados Unidos. O estudo, feito entre 27 de maio e 13 de agosto de 2010, abrangeu 948 profissionais, sendo 404 arquitetos, 162 engenheiros, 194 contratantes e outros 188 agentes, entre fabricantes, consultores e demais usuários.

Para 80% dos usuários com grande experiência prática em BIM, a tecnologia reduz os erros e as omissões no acervo técnico (documentação) da construção; cerca de 71% também identificam redução de retrabalho e outros 71% afirmam que o modelo ajuda a reduzir o ciclo de fluxos específicos de certas atividades, especialmente as de desenho. Para 62% dos respondentes, o BIM ajuda a empresa a oferecer novos serviços para clientes e, de acordo com 51%, o conceito serve também como uma ferramenta de marketing para atração de novos clientes e aumento da competitividade da empresa. Por fim, 49% dos especialistas afirmaram que o BIM aumenta o lucro de seus negócios. Em suma, a maior vantagem do sistema relatada pelos usuários de BIM é a economia de tempo e a redução de custos.

Os respondentes analisaram ainda quais os benefícios do BIM que mais favorecem o retorno sobre o investimento necessário à modelagem da construção. Veja o resultado no gráfico “Benefícios do BIM x Payback”, em destaque. Cerca de 46% dos usuários europeus (e 32% norte-americanos) que fazem mensurações sistemáticas do retorno do investimento em BIM identificam retornos de 25% ou mais na adoção do BIM. Abaixo, saiba quais os ganhos que o BIM pode agregar ao negócio da construção.

A comunicação entre os profissionais envolvidos é mais clara

Ao compartilhar informações por meio do BIM, o time de profissionais envolvidos no empreendimento pode comunicar melhor suas ações e ideias, o que significa melhoria da comunicação multidisciplinar entre todos os envolvidos, difusão do conhecimento sobre projetos em 3D e maior compreensão dos profissionais em relação aos objetivos do empreendimento e suas responsabilidades.

 

Os erros de projeto reduzem expressivamente

 

A inserção de informações de diferentes agentes em um único projeto e o compartilhamento destas informações entre usuários diversos envolvidos no empreendimento ajudam a eliminar a redundância de dados e reduzem o potencial de erros em todas as etapas da construção. Isto porque o empreendimento é construído virtualmente, sendo possível antecipar incompatibilidades entre projetos.

 

O volume de retrabalho na obra é reduzido

 

Edificar virtualmente significa diminuir a aparição de problemas nos projetos e nos canteiros de obra, reduzindo, assim, a necessidade de retrabalhos e mudanças durante a construção, bem como a incidência de conflitos entre subempreiteiros e contratados.

 

A produtividade aumenta

 

O BIM permite a troca de experiências, o estudo de sequências construtivas, a simulação de alternativas tecnológicas e melhoria da logística de canteiro, facilitando o desenvolvimento de soluções que otimizem a obra e, portanto, reduzam seu prazo. Para os arquitetos e projetistas, a perspectiva com a automatização de processos é de menos tempo de desenho e mais tempo de projeto. Na obra o detalhamento visual proporcionado por softwares 3D facilita a compreensão por parte dos operários, o que resulta em menos bate-papo para interpretação de projetos 2D e mais velocidade na montagem. O BIM também aumenta a agilidade da medição dos serviços subempreitados, já que, no momento da requisição, o escopo dos insumos fica claramente definido, com fácil identificação pelo engenheiro de custos e pelo gerente do contrato.

 

O controle sobre o cronograma é mais rigoroso

 

Empreendimentos em BIM preveem a integração de informações de planejamento ao conjunto de projetos em 3D. Com isso, é possível, já na etapa de projeto, planejar cada etapa construtiva em um tempo específico e mais próximo do real e até obter o histograma de produção por tipo de serviço. O resultado é um cronograma mais assertivo e programado, e um controle maior sobre os prazos da obra.

 

Melhora a performance das edificações

 

Quanto mais usuários compartilham informações por meio dos modelos em BIM e maior detalhamento tem o projeto, menor o potencial de risco da obra, tanto em prazo, custo, quanto em qualidade.

 

As estimativas de custo ficam mais precisas

 

Na modelagem da informação da construção, a parametrização do modelo permite que cada item, insumo e material sejam quantificados automaticamente pelo próprio software. Essa possibilidade, além de diminuir e muito a parte “braçal” do trabalho dos orçamentistas, tornará possível a obtenção de estimativas de custo mais próximas à realidade, ou seja, com uma margem de erros expressivamente menor que as alcançadas pelo modelo convencional – fator determinante para o lucro do empreendimento.

 

Os riscos diminuem

 

Com o BIM, a equipe de projeto identifica conflitos mais cedo, a custos mais baratos e com mais cooperação dos subcontratados. As revisões de projetos em 3D literalmente trazem todos os envolvidos à mesma sala, para que todos trabalhem juntos na resolução de problemas. Esse procedimento diminui significativamente os riscos do projeto, acreditam usuários. Além disso, como os projetos elaborados em BIM oferecem informações mais precisas e específicas que os convencionais, o empreendimento como um todo ganha em acuidade.

 

A gestão pós-obra ganha dados mais consistentes

 

Os dados da construção do edifício, do projeto à obra, poderão ser, a partir da consolidação do BIM, facilmente coletados e analisados para manutenção e gestão do edifício durante sua vida útil. O modelo BIM também poderá alimentar os departamentos de pós-obras com informações consistentes em relação ao desempenho do empreendimento e de seus sistemas e materiais. Assim, no caso de uma reclamação de um consumidor, por exemplo, a assistência técnica poderá acessar o projeto e verificar o histórico do item reclamado, obtendo informações sobre a execução e as necessidades de manutenção e desempenho. Por conta disso, o BIM servirá também para balizar perícias no caso do aparecimento de falhas construtivas e melhorar a relação da empresa com seus consumidores.

 

A relação com os clientes e stakeholders fica mais transparente

 

O BIM também se mostra particularmente útil para validações junto a clientes diversos (de empreiteiros a consumidores e acionistas). Junto ao consumidor, é possível apresentar, com mais detalhes, o andamento da obra e os cuidados da empresa em honrar os prazos acordados; no trabalho com subempreiteiros e fornecedores de serviço, o modelo funciona como um instrumento prático de parceria, em que os subcontratados participam diretamente do projeto e deixam registradas suas responsabilidades; na relação com acionistas, o BIM pode ser ferramenta estratégica para comprovar a eficiência da empresa na gestão de riscos e apresentar os números do projeto.

 

Aumenta a segurança no ambiente de trabalho

 

Muitos usuários acreditam que o BIM pode tornar o ambiente de trabalho mais seguro, uma vez que as soluções construtivas são extensamente planejadas antes da obra propriamente dita. Como grande parte dos conflitos do projeto é eliminada antes da fase de canteiro, os usuários podem empregar pré-fabricados com mais confiança.

 

Projeções de ecoeficiência ficam mais fáceis

 

O modelo BIM também permite aos arquitetos fazerem análises antecipadas de custo de energia e conforto térmico em uma edificação e, com isso, promover soluções mais ecoeficientes. A diminuição de erros e retrabalho também se reverte, obviamente, em menos desperdício de materiais no canteiro e melhor performance do edifício – itens críticos à sustentabilidade.

 

Sua empresa ganha um diferencial em concorrências

 

À medida que o uso do BIM começa a ser reconhecido por contratantes como um mecanismo eficiente de gestão de riscos da construção, as empresas que apresentarem know-how na modelagem de informações e projeto poderão usar essa vantagem competitiva em suas estratégias de marketing e em processos de concorrência.

 

Os litígios e as reclamações têm base mais sólida

 

O compartilhamento das informações entre todos os agentes envolvidos dificulta omissões, o que significa que se algum problema vier à tona, vai ser difícil dizer “eu não sabia”, até porque todos os dados, responsabilidades e direitos ficam registrados em projeto. O banco de dados completo do empreendimento, com informações detalhadas sobre uso e manutenção, também poderá blindar as incorporadoras em caso de reclamações de consumidores.

 

 

 

 

 

O que muda para cada um
Modelagem da informação da construção impacta todos os agentes da cadeia. Veja os principais impactos na sua área

Por Lilian Burgardt e Mariana Kindle Colaborou Pâmela Reis

Orçamentistas: menos levantamento, mais estratégia

A automatização dos cálculos dos custos viabilizada pelo BIM deve reduzir os prazos para a conclusão do levantamento de quantitativos e ampliar o nível de detalhamento e precisão das orçamentações. “Com tudo feito automaticamente, é possível fazer estudos de cenários, soluções alternativas e analisar o impacto das alterações de escopo no custo de um empreendimento de forma muito rápida”, diz Joyce Paula Martin Delatorre, coordenadora do núcleo BIM da Método Engenharia. A possibilidade abre um campo de atuação mais estratégica ao profissional de orçamentos. “O orçamentista passará a atuar com mais foco na consolidação de preços unitários e menos de elaboração de quantitativos”, acredita o diretor do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), Roberto de Souza.

Para o diretor da Sinco Consórcio Técnico, Fernando Correa, com a consolidação do BIM, o orçamentista assumirá um papel muito mais de qualificador de especificação, do que de quantificador, e seu principal objetivo será melhorar a formatação do orçamento, inclusive criando modelos e diversas soluções de engenharia, como opções de uso na construção.

 

Fornecedores: catálogos em 3D e com muitas informações

 

Aos fornecedores aponta-se o desafio e a oportunidade de criação de um diferencial competitivo: a criação de bibliotecas de componentes e produtos em modelagem 3D. Para os fornecedores que já possuem aplicativos em formato CAD, bastará adaptá-los a formatos tridimensionais. Ainda não há consenso sobre o modelo ideal para criação dessas bibliotecas, porém especialistas defendem que os catálogos abranjam não apenas especificações técnicas e características dimensionais dos materiais, gerando modelos paramétricos, como também informações relativas a normas técnicas, desempenho, manual de uso e manutenção, entre outros; tudo em uma base virtual eletrônica compatível com os mais diferentes programas utilizados para a construção e, se possível, com níveis de acesso à informação.

Para Joyce Paula Martin Delatorre, da Método Engenharia, a biblioteca ideal seria aquela em que parte das informações é inserida pelos fornecedores e a outra, por cada um dos participantes do processo ao longo de cada etapa do ciclo de vida do empreendimento. “Cada um terá o seu papel em todo esse processo.” Vale lembrar que a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) está desenvolvendo uma norma para a padronização de um sistema de classificação da informação da construção que guiará a classificação das famílias e facilitará a interoperabilidade e uso destas no futuro.

 

Compradores: maior controle na gestão de suprimentos

 

O maior impacto do BIM para a área de suprimentos é a precisão e riqueza de informações que o modelo poderá agregar à especificação das aquisições. Já durante a execução da obra, uma vez que o banco de dados dos modelos paramétricos esteja integrado aos sistemas de orçamento, planejamento e controle de execução, a expectativa é de que seja possível visualizar, no próprio modelo, quais materiais estão instalados, quais estão em estoque e assim por diante. Isto melhorará a gestão de suprimentos, pois haverá maior controle e precisão sobre quais insumos devem ser adquiridos e os prazos disponíveis, facilitando o planejamento das aquisições e garantindo maior poder de negociação com os fornecedores, inclusive com antecipação do processo de compra. A redução de retrabalho e do desperdício de material também diminuirá a necessidade da consideração de contingências no projeto.

 

Vendedores: mais persuasão e informação

 

A disponibilidade de um modelo 3D do edifício significará, para os vendedores, um barateamento expressivo no custo de produção de maquetes físicas, hoje onerosas e demoradas para serem produzidas. Além disso, será possível incrementar o nível de informações apresentado aos clientes. Na opinião do professor do departamento de engenharia da construção civil da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), Eduardo Toledo dos Santos, as maquetes virtuais interativas ampliam o leque de possibilidades do comprador, permitindo que ele faça passeios virtuais ao interior dos cômodos do imóvel, aos espaços comuns e até observe a vista da varanda. “Esse será um recurso de persuasão interessante para o vendedor, mas também trará maior confiança para o comprador ao tomar sua decisão sobre a aquisição do imóvel”, acredita.

Outro aspecto importante do BIM nas vendas é que a produção de peças publicitárias a partir do modelo usado na geração dos projetos “ajudaria a eliminar os litígios em relação às diferenças entre o que foi anunciado e aquilo que foi construído”, informa Toledo. Além disso, o BIM poderá funcionar nos estandes de venda como ferramenta ágil e de precisão para a personalização de apartamentos, “permitindo o cálculo automatizado do respectivo custo”.

 

Construtoras: mais eficiência, menos improviso

 

O BIM reduz a quantidade de erros nas obras causados por incompatibilidades construtivas, uma vez que essas interferências são detectadas com antecedência, no modelo virtual. Com isso, o número de atrasos e paralisações tende a cair, facilitando o atendimento dos prazos e ganhos de margem na obra, e reduzindo o retrabalho e desperdício de recursos; em suma: economia de gastos. O engenheiro terá um material mais confiável para gerir o processo de planejamento, execução e controle da obra, e a possibilidade de experimentar sequências construtivas melhora também a logística dos canteiros.

No dia a dia da obra, a linguagem 3D terá impacto direto se levada para a realidade do mestre de obras e sua equipe, que terão mais facilidade para entender o projeto e aplicar o que está sendo proposto. “Quando chega à mão do mestre de obra, o PDF de um projeto 3D permite uma visualização muito melhor do que deve ser implementado, pois as informações estão em uma mesma base”, comenta a diretora da NGI Consultoria e Desenvolvimento, Maria Angélica Covelo Silva. A unificação das informações em um modelo único, e antes do início da construção, promete reduzir o tempo com reuniões de canteiro e o volume de improvisos e mudanças na obra. “É possível estudar cenários, fazer o estudo de logística do canteiro e visualizar interferências entre os serviços, de uma maneira mais rápida do que pelos processos tradicionais”, afirma Joyce.

O diretor do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), Roberto de Souza, visualiza ainda impactos diferentes às construtoras, a depender do nicho de negócio: no segmento de incorporação (em que cada projeto é único e há um timing curto entre compra de terreno, lançamento, projeto e construção), o BIM poderá colaborar com a redução de interferências, orçamento, planejamento e gerenciamento de obras; no segmento econômico, o BIM tem o potencial de contribuir de forma relevante nas questões de racionalização de projeto, implantação e obra, redução de custos e definição de novas tecnologias, por conta do ganho de escala, repetitividade e industrialização da construção. No segmento de prestação de serviços de engenharia e construção de shoppings, edifícios comerciais, hospitais, hotéis, indústrias e centros de logística, o BIM, na visão de Souza, terá maior importância nas áreas de orçamento, planejamento, custos, seleção de tecnologia, prazos e gerenciamento e as built, contribuindo com a gestão do uso, operação e manutenção. Por fim, no segmento da indústria de pré-fabricados, o BIM terá papel relevante no projeto, controle dimensional, interferências e no processo de montagem da obra.

 

Incorporadoras: integração das equipes

 

Como contratante geral, as incorporadoras, para operarem com BIM, assumirão papel organizador na gestão de todos os contratados envolvidos no projeto, a começar pela definição do escopo da modelagem, alinhando a metodologia de trabalho dos vários departamentos envolvidos no projeto, desde os métodos de levantamento de quantitativos, à nomenclatura dos insumos e parametrização dos objetos. Por isso, muda a forma como os processos se relacionam dentro da empresa: atividades que antes eram sequenciais passam a ser simultâneas, exigindo maior integração entre as equipes e maior esforço de coordenação por parte dos gestores.

A extração de quantitativos para elaboração do orçamento, por exemplo, será diretamente influenciada pelo grau de detalhamento da modelagem 3D na fase de projeto. Projetistas de diferentes disciplinas precisarão entrar mais cedo no desenvolvimento, o que também deve impactar a forma de contratação destes profissionais. A eficiência na obra também beneficiará o atendimento dos prazos prometidos aos clientes e ao mercado. Como a orçamentação ganhará precisão e agilidade, com a extração automática de quantitativos do modelo 3D, os gastos para elaboração de orçamentos tendem a ser reduzidos, assim como o risco dos empreendimentos, aumentando a assertividade dos custos. A flexibilidade para experimentar alternativas também afeta as equipes de concepção de empreendimentos, aumentando sua produtividade e até encurtando os prazos necessários para o lançamento.

 

Arquitetos: muda a forma de pensar o projeto

 

Na transição do CAD para o BIM na concepção de um projeto de edificação imobiliária, a rotina e o papel dos arquitetos sofrem impactos expressivos. Para projetar em BIM é preciso mais informações do que em modelos bidimensionais. “Tem que saber qual acabamento das paredes, qual tipo de esquadria será usado, enfim, tudo antes de iniciar o modelo”, explica o arquiteto Cesar Marques, da Roberto Candusso Arquitetos Associados.

Detalhes técnicos também são trazidos para a fase de anteprojeto, como a altura de paredes, a espessura da laje e o método construtivo, por exemplo. “Quando se desenha em BIM, é preciso pensar em como aquilo vai funcionar na obra, na sequência construtiva, que influencia o modelo. Por exemplo, tenho que pensar que a parede vai sair do bruto da laje inferior e encostar-se à laje de cima e, depois disso, virá o piso. Não poderia desenhar o piso e a parede em cima”, acrescenta Olivia Salgueiro, da MCAA Arquitetura.

A mudança exigirá desenhistas com vivência de campo, portanto, com mais senioridade. Por isso, as atribuições do cadista deverão ser revistas. Todo desenhista deverá ser um projetista, alguém que toma decisões de projeto. Com o BIM, o arquiteto retoma responsabilidades perdidas ao longo do tempo na criação de um projeto, no envolvimento direto com o canteiro e até na gerência da obra. As relações entre arquitetos, projetistas e construtoras mudam. A construtora precisará disponibilizar informações que seriam cedidas só no final do processo, logo no anteprojeto, como o acabamento e detalhes dos sistemas construtivos. Arquitetos e projetistas farão seus projetos de modo muito mais integrado e concomitante, uma vez que o desenvolvimento do projeto arquitetônico será adiantado.

O arquiteto será responsável por enviar às construtoras quantitativos até então feitos por elas, pois, com a modelagem em BIM, a extração de listagens de materiais e peças usadas na obra é obtida automaticamente. “Como posso desenhar no modelo o mesmo elemento de diversas formas, tenho que pensar em como vou querer contar isso depois – por unidade, por metro quadrado, por metro linear”, exemplifica Salgueiro. Além disso, será preciso criar uma estrutura de dados que todos sigam, nomenclaturas padronizadas para que os dados vindos obtidos no modelo não precisem ser traduzidos na relação entre parceiros.

 

Projetistas: integração de projetos exigirá maior detalhamento

 

Para os projetistas, o BIM traz a possibilidade de análises virtuais das interferências, valendo-se da comunicação via mark ups e marcações feitas nos diferentes projetos, ou de reuniões mais intensas. A relação com a construtora exigirá reformulação de prazos e do material a ser entregue. Muito dependerá do nível de detalhamento requerido pela construtora. Para fins de orçamento, por exemplo, será preciso escolher entre modelar as teclas no interruptor, se estas forem compradas em separado, ou apenas as caixas de interruptores e as tomadas associados, contando como um único elemento se forem compradas de um só fornecedor. Aqui volta a questão das bibliotecas, fundamentais na obtenção da lista de materiais para orçamento.

Para Fábio Nakayama, engenheiro de sistemas da Soeng, a adaptação ao BIM será mais difícil para os projetistas elétricos, pois o projetista de hidráulica faz o desenho, apesar de ser em 2D, mais próximo da realidade. Uma vez feita a tropicalização dos programas em BIM para projetistas, todos esses desafios serão impostos aos profissionais brasileiros. “Atualmente a Abracip [Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais] está procurando soluções no mercado para softwares que realmente atendam às nossas necessidades de não ter que ficar desenhando. Nosso produto é projeto, não desenho. A gente está procurando isso e está testando”, assegura Nakayana.

Mas para que o BIM vire uma realidade entre os projetistas brasileiros, é preciso que os programas unifiquem desenhos e cálculos; que rodem segundo as normas e legislações nacionais – hoje os softwares só oferecem as normas de seus países de origem, como EUA e Noruega; que os fabricantes de peças forneçam bibliotecas com materiais modelados, pois são muitos componentes diferentes utilizados por projeto, que serão contabilizados ao final; e que os softwares forneçam a tradução técnica do modelo 3D em formato tradicional, de plantas e cortes, destinados à obra.

Desafios da implantação
Consolidação do BIM no Brasil demanda capacitação de profissionais, formatação de biblioteca de componentes e avanços na interoperabilidade

Por Larissa Leiros Baroni

O processo de implantação do BIM no mercado de edificação residencial e comercial está em desenvolvimento e precisa de melhorias para que possa de fato propiciar avanços à construção civil brasileira. De um lado, questões tecnológicas e interesses comerciais colocam em xeque a interação de toda a cadeia produtiva. Do outro, a criação de bibliotecas de componentes (que aproximem o sistema virtual à realidade da obra) e a qualificação de profissionais, que se torna essencial para o melhor aproveitamento do potencial da ferramenta. 

Interoperabilidade

“A integração automatizada do projeto arquitetônico a projetos complementares depende da criação de soluções tecnológicas que propiciem a interoperabilidade entre diferentes softwares.” A afirmativa é de Eduardo Toledo Santos, professor do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). Em outras palavras, é preciso criar uma linguagem comum ou uma solução de exportação para que os diferentes programas de projeto conversem.

Segundo Abram Belk, diretor de desenvolvimento da TQS Informática, provedora de sistemas para cálculo estrutural, “em alguns casos, projetistas têm que usar softwares de um mesmo fornecedor para poderem conversar, o que amarra esses profissionais a determinados acordos comerciais. De nossa parte, para atender o projeto estrutural, desenvolvemos soluções diferentes para interagir com softwares diferentes”, relata ele.

O grupo interinstitucional sobre BIM, liderado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), com o envolvimento da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA) e a Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais (Abrasip), propõe a criação de uma linguagem comum compatível aos mais variados softwares. “Estuda-se adotar a Industry Foundation Classes (IFC), uma medida válida internacionalmente”, diz Maria Angelica Covelo Silva, coordenadora do grupo e diretora da NGI Consultoria e Desenvolvimento. O modelo é utilizado pela indústria norte-americana e padronizado pela ISO 16.739.

A complexidade do sistema, segundo Santos, está na criação de uma linguagem que represente todos os elementos da construção civil brasileira, que é bem diferenciada da dos Estados Unidos, e com todas as suas variantes. A viabilidade do modelo, no entanto, teria de superar os interesses comerciais das empresas de software, segundo ela. “Naturalmente a interoperabilidade entre produtos de uma mesma empresa, sob um formato proprietário, se torna mais simples. Neste contexto, utilizar uma linguagem padronizada é desinteressante para elas”, adverte Belk. Ainda sim, há protocolos de interação entre diferentes empresas de software.

A necessidade imperativa de imediata adoção do IFC não é, porém, um consenso. Para Luiz Augusto Contier, titular de Contier Arquitetura e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas, a adoção ou não do IFC não impede nem adia a implantação do BIM. Antes dessa preocupação, segundo ele, é preciso que se efetive a necessidade de troca de arquivos entre as disciplinas. “Hoje, a arquitetura está produzindo em BIM. À medida que outras disciplinas passarem a produzir sistematicamente, talvez haja a necessidade da adoção de uma nomenclatura comum e genérica – como é o caso do IFC”, diz. Por outro lado, “a sugestão é que os próprios programas criem opções de importar/exportar informações de arquivos de outros softwares, pelo menos aqueles de maior receptividade do mercado, como já é prática corrente. Assim haverá maiores garantias de não haver perdas significativas em um projeto no momento da conversão dos dados de um sistema para o outro”, explica.

A implantação do BIM, no entanto, não depende de uma resposta concreta para o desafio da interoperabilidade. “Não se trata simplesmente de uma vantagem estratégica. Quem não se adequar, não vai sobreviver. Isto vale para as empresas de software e também para as de projeto”, adverte Belk.

 

Qualificação

Além de assimilar novas ferramentas tecnológicas e aprender a trabalhar colaborativamente, aos profissionais que quiserem trabalhar com BIM – sejam engenheiros, arquitetos ou projetistas – será imposto o desafio de reaprender a projetar a partir de modelos tridimensionais e integrados a todos os processos do empreendimento, inclusive os gerenciais.

Mudança que, segundo Eduardo Sampaio Nardelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie e presidente da Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital (SIGRADI), se resume na forma de se pensar os projetos. “Se desde o Renascimento bastava representar ideias a partir da geometria, hoje, serão exigidos planos tridimensionais para que seja possível fazer projeção real ao que vai ser construído com a definição de elementos estratégicos e estruturais da obra”, explica. Ou seja, as decisões que normalmente se concentram no projeto executivo serão antecipadas para a fase de projeto.

Na opinião de Nardelli, todos os agentes da cadeia terão que se readequar. “Isso porque o conceito será implantado de maneira integrada e atingirá inclusive aqueles profissionais que atuam nos canteiros. As pessoas que trabalham no marketing, por exemplo, também vão ter que aprender o novo jeito de empreender para divulgar o conceito e seus benefícios”, cita o professor.

Nesta direção, empresas e universidades assumem o papel de agentes condutores da transformação. É o que garante Maria Bernadete Barison, arquiteta, doutoranda do curso de pós-graduação em engenharia de construção civil da Universidade de São Paulo e autora de diversos estudos sobre o BIM. “Enquanto as empresas, para suportar as novas demandas, terão que reestruturar seus quadros de funcionários e capacitá-los para uso das novas tecnologias, para formar profissionais engajados ao conceito será fundamental uma reformulação nas grades curriculares dos programas de Arquitetura e Engenharia Civil”, aponta. (Leia mais sobre mudanças curriculares no artigo “BIM e o desafio para as universidades”, nesta edição).

 

Formação de bibliotecas

Com a implantação do BIM na construção civil, fornecedores de produtos e materiais ganham papel importante no processo de criação tanto de projetos de arquitetura como de elétricos, hidráulicos e de estrutura. Para que os desenhos virtuais possam de fato representar a realidade de uma obra, a criação de bibliotecas de componentes se torna essencial, assim como a maior aproximação entre fornecedores, arquitetos e engenheiros.

Além de informações detalhadas dos produtos, tais como dimensões e características físicas, também será necessária a divulgação de dados relativos aos seus desempenhos, bem como às normas técnicas, à aplicabilidade e até à manutenção. É o que aponta Fernando Augusto Correa da Silva, diretor da Sinco Consórcio Técnico. Mas muito mais do que mudar o conteúdo dos catálogos dos fornecedores, ele acrescenta a necessidade do investimento em aplicativos que integrem as informações de seus produtos aos softwares em 3D.

Segundo Maria Angelica Covelo Silva, diretora da NGI Consultoria e Desenvolvimento, não há regras, tampouco padrões mínimos de qualidade que possam auxiliar os fornecedores a criar suas bibliotecas de componentes. “Pretendemos, no entanto, formular diretrizes que possam criar padronizações e, ao mesmo tempo, respeitar a heterogeneidade dos diferentes tipos de fornecedores da construção civil”, afirma ela, que também é coordenadora do grupo interinstitucional sobre BIM que envolve associações setoriais.

A previsão, de acordo com Maria Angelica, é que a norma técnica seja lançada ainda esse ano. Mas mesmo sem o guia, “muitas empresas já possuem catálogos com as informações consideradas prioritárias. Há algumas inclusive que já mantêm bibliotecas em formato CAD. Ou seja, os elementos já existem, basta adaptá-los ao formato 3D”, assegura ela, que também ressalta a possibilidade do acréscimo de outras informações consideradas não comuns às bibliotecas atuais para agregar mais valor aos produtos.

A Tigre promete adaptar sua biblioteca de produtos, intitulada Tigrecad, às necessidades do BIM. “Por meio eletrônico, serão disponibilizadas não só as características geométricas de nossos produtos, mas também o inter-relacionamento entre seus componentes, bem como seus parâmetros e atributos. Também serão fornecidas informações relevantes para a tomada de decisão dos diferentes agentes envolvidos no empreendimento em todo o ciclo de vida da edificação”, diz Giancarlo Minoietti, gerente de marketing de vendas da Tigre, que garante que as informações serão compatíveis com a grande maioria dos programas na versão 2D e 3D.

A proposta, segundo Minoietti, prevê que todos os dados gerados pelas equipes de projeto, mesmo que de diferentes especialidades, se mantenham consistentes e devidamente coordenados ao longo de toda a cadeia de valor. “Estratégia utilizada para a redução da ocorrência de erros. Isso porque muitas vezes esses erros só são descobertos durante o processo de construção e que normalmente têm um impacto muito negativo nos custos da obra”, diz ele.

São poucos os fornecedores, porém, que estão se antecipando às inovações propostas pelo BIM. Mas esse inexpressivo envolvimento, na opinião de Maria Angelica, não impedirá que os projetos de arquitetura, elétricos, hidráulicos e de estrutura sejam planejados a partir do BIM. “O nível de precisão das informações nem sempre está vinculado à marca de um produto. Há padrões no setor que podem auxiliar tanto os arquitetos como os engenheiros. A experiência profissional nesse processo de captação de informações também é bastante válida”, expõe a diretora da NGI.

Para vencer essa ausência de informações sobre os componentes relacionados à área de instalação, a Método optou em desenvolver sua própria biblioteca. “O ideal seria que os fornecedores fornecessem esses dados, mas, em vez de esperar que isso acontecesse, decidimos parar para montar nosso banco de dados. É nada mais do que homem-hora”, relata Joyce Delatorre, coordenadora do núcleo BIM da Método.

O desafio para as Universidades
Formação de recursos humanos devidamente familiarizados com os novos paradigmas que o BIM pressupõe é essencial e urgenteEduardo Toledo Santos e Maria Bernardete Barison

Muito se tem falado e escrito sobre a Modelagem da Informação da Construção ou BIM (Building Information Modeling), e não sem razão. O BIM representa um enorme salto para a Construção Civil no uso da Tecnologia da Informação, permitindo que recupere décadas de atraso nesse campo.

Tecnologias e processos ligados ao BIM permitem o registro de todas as informações de uma edificação, desde a concepção até a demolição, e serve a todos os participantes e disciplinas do empreendimento. Toda essa informação, incluindo a geometria 3D e especificações dos componentes, é armazenada num modelo digital parametrizado. A disponibilidade de informação integrada e consistente facilita e fomenta o uso de aplicativos de simulação e análise, a colaboração e o uso de novas formas de gestão do empreendimento, como o IPD (Integrated Project Delivery).

O BIM pressupõe a criação colaborativa de um modelo digital do edifício, em que cada profissional agrega ao modelo as informações específicas de sua disciplina. As ferramentas BIM permitem a automatização de tarefas como documentação e detecção de interferências, mas a grande contribuição é o fomento ao projeto integrado, em que os aportes de cada profissional surgem com muito mais antecedência que no processo tradicional.

Com a recuperação econômica da Construção no Brasil, o BIM é visto como uma tecnologia estratégica para o crescimento sustentado do setor, já que a melhora no planejamento e no projeto reduz erros, prazos e desperdícios; amplia a capacidade dos projetistas e otimiza o trabalho da mão de obra no canteiro – todos recursos escassos face à demanda observada.

Entretanto, para que um empreendimento possa se beneficiar do BIM, é necessário que disponha de mão de obra, especialmente a de nível superior, devidamente educada sobre os novos conceitos e tecnologias que representa. Para isso, a experiência profissional adquirida no próprio mercado seria de grande valia, porém ainda são poucos os escritórios e construtoras que adotaram o BIM como ferramenta de rotina. Dessa forma, o papel da universidade na formação de recursos humanos devidamente familiarizados com os novos paradigmas que o BIM pressupõe é essencial e urgente.

 

Experiências internacionais

 

Existem hoje importantes experiências de utilização da Modelagem da Informação da Construção no ensino de Arquitetura e de Engenharia Civil, especialmente em países onde o BIM está mais difundido.

Em 2008, ao relatar sua experiência com o ensino de BIM na California State University, o professor William Kymmell citou as possíveis limitações e obstáculos que um curso enfrentaria ao introduzir BIM no currículo. Esses problemas incluem dificuldades na utilização e aprendizagem das ferramentas BIM, incompreensão dos conceitos de BIM e as circunstâncias do ambiente acadêmico, entre os quais estão a falta de “espaço” no currículo, a rápida evolução das novas tecnologias, a escassez de professores especializados, a disponibilidade de recursos, entre outros.

No Brasil, a situação não é diferente. Aqui também a maioria dos professores dos cursos ligados à Construção é de uma geração desacostumada ao uso da TI – a mesma que dirige o mercado hoje – e tem dificuldade para absorver essas novas tecnologias, integrando-as ao currículo. Os programas dos cursos de arquitetura, engenharia e administração raramente se intersectam, e o relacionamento curricular entre gerenciamento da construção e projeto em geral praticamente não existe. Esta situação é inadequada para a formação profissional, mesmo para as práticas e tecnologias atuais e, muito pior, se forem considerados os pressupostos do BIM.

Algumas universidades internacionais que superaram esses obstáculos são hoje identificadas como líderes no ensino de BIM. Suas estratégias de introdução de BIM no currículo foram, essencialmente, de quatro tipos: disciplinas isoladas, colaboração intracursos, colaboração interdisciplinar e colaboração à distância.

A primeira estratégia, o oferecimento de disciplinas especializadas, é a menos recomendada, dada a própria essência colaborativa do BIM. No entanto, presta-se bem para o contato com ferramentas e compreensão dos conceitos mais técnicos do BIM. Pode se dar também através da incorporação de novos conteúdos em matérias já existentes.

A colaboração intracursos é um modelo de ensino em que se pode ensinar a criar, desenvolver e analisar modelos BIM ou até ensinar conceitos BIM mais subjetivos e simular a colaboração em um empreendimento real, mas sempre com estudantes de um mesmo curso, por exemplo, Engenharia Civil ou Arquitetura.

A partir de 2007, algumas universidades começam a ensinar BIM em Atelier de Projeto Integrado/Interdisciplinar em que alunos de Arquitetura, de Engenharia e de Gerenciamento da Construção trabalham colaborativamente no desenvolvimento de um projeto. Esse modelo de atelier é estruturado em torno do conceito de que os alunos formam uma equipe de projeto integrado. Neste modelo de ensino, denominado “Colaboração Interdisciplinar”, estudantes de dois ou mais cursos na mesma universidade aprendem conceitos BIM e simulam uma colaboração real, vivenciando situações práticas. Uma variação desta estratégia, especialmente adotada por universidades que possuem apenas o curso de Arquitetura ou o de Engenharia Civil, é a “Colaboração à Distância” entre estudantes de diferentes universidades. Nesse modelo, estudantes de duas ou mais universidades interagem e, como bônus, os alunos são expostos a situações e tecnologias típicas da colaboração à distância, cada vez mais importantes no cenário atual de globalização.

Considerando-se a abordagem internacional de introdução de BIM nos currículos, a predominância é introduzir BIM em atelier de projeto, mas há casos em que o atelier é integrado com outra matéria, geralmente para ensinar as ferramentas BIM. Outra abordagem é ensinar BIM em Representação Gráfica Digital, Gerenciamento, Tecnologia da Construção, Estágio e Trabalho Final de Graduação.

 

Multidisciplinaridade no ensino

 

O processo de implantação do BIM nas universidades revela que não se trata de apenas criar matérias no currículo. BIM tem potencial para ser introduzido ao longo de todo o programa. Os cursos deveriam explorar as aplicações BIM específicas de sua disciplina e depois investir na integração com outros cursos, mantendo os pontos fortes do ensino tradicional baseado em disciplinas e ao mesmo tempo tornando-se multidisciplinares. Assim, os princípios de BIM podem ser introduzidos primeiro em um curso e depois entre cursos.

Nos dois primeiros anos do currículo poderiam ser desenvolvidas as habilidades individuais de modelagem e análise do modelo, ou seja, ensinar ferramentas e aplicativos BIM em matérias de Representação Gráfica Digital. Os anos posteriores poderiam se concentrar mais no trabalho em equipe através do desenvolvimento de um projeto que integrasse duas ou mais matérias do curso, como por exemplo, Atelier de Projeto, Sistemas Estruturais, Instalações Prediais e Conforto. O último ano poderia se concentrar no trabalho em equipe multidisciplinar através do desenvolvimento de projetos de construção reais em Atelier de Projeto Integrado/Interdisciplinar e em colaboração com empresas locais.

As universidades brasileiras que pretendem introduzir BIM no ensino como exposto acima, provavelmente enfrentarão vários problemas como, por exemplo, a falta de professores treinados no BIM e a de referências sobre BIM em língua portuguesa. Outro problema são as ferramentas BIM que trabalham com bibliotecas que seguem padrões que às vezes não refletem a realidade regional onde são utilizados. Mas provavelmente, o maior deles será promover a integração entre as diversas áreas do currículo e encontrar cursos de outros departamentos, ou até mesmo de outras universidades que estejam dispostos a promover a integração e colaboração. Além disso, as universidades precisam do apoio da indústria e fornecedores para achar uma solução para as lacunas e carências profissionais em BIM, mas no Brasil ainda não existe contato organizado da indústria da Construção com as universidades.

Outra forma de introduzir essas mudanças é adequar os Planos Político-Pedagógicos das universidades a esta realidade, incluindo incentivos à promoção de modelos de colaboração e à integração de cursos.

Quanto a experiências brasileiras, sabe-se apenas da adoção de ferramentas BIM em alguns cursos de Arquitetura, e de disciplinas especializadas no tema, em nível de pós-graduação.

Na medida em que a indústria da construção civil tornar-se mais integrada, influenciará na educação de futuros profissionais, com currículos que refletirão a “união” cada vez maior entre projeto e construção.

Eduardo Toledo Santos, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Maria Bernardete Barison, professora da Universidade Estadual de Londrina

 

 

 

 

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4 respostas para Gestão remodelada

  1. Raymundo disse:

    Caro Rodriguez,
    Excelente coletânea, parabens!que tal produzir um tópico exclusivo?
    Raymundo Dórea

  2. Roni disse:

    Fazer uma “mudança” para um sistema integrado e compatibilizado entre as diferentes disciplinas é possível, em médio e curto prazo, para as grandes empresas da construção civil, pois possum equipes próprias, para os profissionais liberais, que dependem de outros profissionais liberais, esse sistema está muito distante.

    • rodriguezarq disse:

      Realmente! Mas devemos pensar desde já em nos atualizarmos para esse novo sistema vir a funcionar por completo, por mais que no inicio não aproveitemos 100% . Independente de ser para um profissional liberal ou uma empresa, ele ainda proporciona uma enorme vantagem na hora da criação e compatibilização. Produção em 2D, só através das ferramentas que geram os desenhos! O futuro é pensarmos no edifício virtual.

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