28/Fevereiro/2011

Blog de arquiteto português traz dicas sobre o uso do BIM

ArchiTruques, mantido pelo professor Miguel Krippahl, faz sucesso ao apresentar tutoriais sobre o uso da plataforma. Confira entrevista

Mauricio Lima

O arquiteto português Miguel Krippahl é responsável pela manutenção do blog ArchiTruques, que apresenta tutoriais sobre o uso do software ArchiCAD, integrado ao BIM (Building Information Modeling) e sobretudo ao uso desta última plataforma.

Reprodução

 

Desde o início da criação do blog, em 2006, mais de 100 mil pessoas já acessaram a página de Krippahl, que também é professor na Universidade Católica Portuguesa. “A maior parte do meu conhecimento do ArchiCAD veio da oferta graciosa de outros utilizadores, por isso julgo de elementar justiça partilhar esse conhecimento da mesma forma”, disse.

Além disso, o escritório que leva o nome do arquiteto, também presta consultoria em BIM para os profissionais da área, uma vez que já vem trabalhando com a plataforma há mais de 10 anos. Em entrevista ao portal PINIweb, o arquiteto fala sobre o desenvolvimento do BIM, baseado em sua experiência com o uso da ferramenta. Confira:

Como surgiu a idéia de criar um blog com tutorial sobre o uso do ArchiCAD e BIM?

Divulgação: Miguel Krippahl

Como utilizador de longa data do ArchiCAD e professor de cadeiras universitárias dedicadas ao BIM, sempre soube que a melhor maneira de aprofundar o nosso conhecimento é investigá-lo e estruturá-lo de modo a ensiná-lo a outros. Por exemplo, qualquer um de nós é capaz de falar, mas se nos pedirem para explicarmos como o fazemos, obrigam-nos a parar e pensar nas várias decisões e movimentos que efetuamos. Com o ArchiCAD é a mesma coisa. Ao tentar explicar como aplico certa metodologia, acabo tendo que investigar mais a fundo as funcionalidades e potencialidades do programa, sendo que muitas vezes sou surpreendido por ferramentas e métodos que nem conhecia.

Quais as principais dificuldades dos arquitetos com relação ao uso das ferramentas?
Existem diversas razões para alguns arquitetos oferecerem resistência à integração de ferramentas BIM no seu fluxo de trabalho. Se tivesse que apontar para uma predominante, diria que a componente artística dos cursos de arquitetura de Portugal, baseada na tradição beaux artiana, encara a adoção de metodologias de projeto baseadas ou apoiadas na tecnologia como redutoras e inimigas da criatividade. Existe de fato um grande preconceito por parte de muitos arquitetos no uso de ferramentas informáticas no processo criativo.

Que tipo de retorno você obteve com o blog?
Nunca tive nenhum retorno direto do meu blog, nem ao nível financeiro nem ao nível da encomenda de trabalho. No entanto, estou certo que a minha reputação como utilizador de ponta do ArchiCAD em Portugal se deve em grande medida ao ArchiTruques, uma vez que qualquer pessoa pode atestar na prática o meu conhecimento da ferramenta e metodologia associada.

Quais trabalhos o seu escritório já realizou com o BIM?
No campo do projeto, já contamos com mais de 50 obras executadas com base em metodologias BIM, em que os projetos foram desenvolvidos em diferentes graus de profundidade com base em modelos virtuais. Esses projetos variam entre as poucas centenas de metros quadrados e vários milhares, em todas as variedades de edifícios. Nos últimos anos temos desenvolvido trabalhos na área da modelação para o planejamento e gestão de obra, designadamente com a construtora Mota-Engil, onde somos responsáveis pela implementação e treino de metodologias e normas de modelação de equipes multidisciplinares, capazes de construir modelos para qualquer fim.

Como está a disseminação do BIM em Portugal?
A implementação de metodologias e ferramentas BIM em Portugal está no início, com um percentual pequeno, mas crescente de escritórios adotando gradualmente estas novas formas de projetar. No entanto, devido à grande crise que se faz sentir neste momento na indústria da construção portuguesa, na falta de conhecimento e apoio técnico especializado e nos custos em tempo e recursos associados à conversão dos gabinetes, muito do BIM que se vê a ser feito é “Hollywood BIM”, ou seja, algo que à superfície aparenta ser BIM, mas que pouco mais são que uns modelos tridimensionais que geram plantas, cortes e alçados e principalmente renderings realistas.

Atualmente é mais fácil projetar em BIM ou em outros sistemas?
Correndo o risco de ser demasiado generalista, atualmente é sem dúvida mais fácil projetar pelo método tradicional do que baseado na metodologia BIM. No entanto, mais fácil não significa mais correto, mais preciso, mais rápido, mais versátil, mais eficaz, mais adequado, mais responsável ou mesmo mais inteligente.

Quais as principais vantagens e problemas do BIM?
A principal vantagem da metodologia BIM é congregar num único conjunto de elementos toda a informação necessária para o planejamento, projeto, construção e gestão do edifício. O maior problema é que essa vantagem faz com que os intervenientes no processo tenham conhecimentos efetivos que lhe permitam contribuir e usufruir do processo. Dito de outra maneira, o BIM torna as decisões transparentes, e a transparência revela a incompetência.

No Brasil, uma das principais reclamações a respeito do BIM é a falta de bibliotecas de componentes adaptadas ao mercado. Esse problema é comum em Portugal também?
Embora esta questão seja mencionada por alguns, não me parece que seja de fato um dos problemas principais. Tendo já mais de 10 anos de uso de ferramentas BIM na produção de projetos, nunca senti que a inexistência desses elementos fosse razão para impedir a realização de um bom trabalho. O esforço adicional que implica criar os nossos próprios componentes e objetos é irrisório quando comparado com outros problemas, como a falta de sistemas universais de classificação, estandardização de sistemas construtivos, sensibilidade por parte das entidades licenciadoras, clientes e construtores, além de conhecimento técnico dos intervenientes.

E quanto ao uso de ambiente colaborativo para o trabalho de um mesmo modelo por mais de um colaborador? No Brasil, esse processo ainda é considerado deficiente.
Na área do projeto, o trabalho colaborativo é essencial para tirar o melhor proveito da metodologia BIM. Nesse aspecto, alguns softwares têm feito progressos notáveis, apresentando hoje em dia soluções com elevado grau de flexibilidade e maturidade. O futuro irá passar sem dúvida por um acréscimo de métodos e plataformas que permitam vários intervenientes e especialidades partilharem um mesmo modelo, com flexibilidade suficiente de modo a permitir um elevado grau de adaptação a diferentes cenários de partilha de responsabilidades.

Você acredita que é possível a criação de uma linguagem comum compatível a todos os softwares BIM?
Não só acredito, com base no trabalho que temos desenvolvido em redor do IFC, como julgo ser inevitável. Se por um lado existem alguns fabricantes de software que sonham em ter ou manter monopólios, por outro temos de fato uma pressão por parte dos utilizadores no sentido de serem desenvolvidas ferramentas BIM que satisfaçam necessidades muito específicas. Ao contrário do paradigma CAD, onde apenas uma ferramenta satisfaz (muitas vezes com grande ineficiência) as necessidades de desenho dos diferentes especialistas em diferentes lugares do globo, no caso do BIM torna-se necessário desenvolver sistemas complexos que respondam a todas as diferentes solicitações. Um modelador para um arquiteto na Finlândia não será certamente adequado para outro na Tailândia, e uma ferramenta de projeto não irá responder às necessidades de uma empresa de pré-fabricação. A enorme variedade de necessidades nunca poderá ser respondida eficazmente por uma plataforma única, dentro da lógica de que um canivete suíço não tem nem uma boa tesoura, nem uma boa faca, nem uma boa lupa, nem uma boa pinça.

Tendo esse princípio em conta, o desenvolvimento de uma linguagem comum é inevitável, e irá prevalecer por exigência dos consumidores de softwares, mesmo que isso seja contrário aos desejos e estratégias de alguns dos seus fabricantes.

 

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