Paulo Mendes da Rocha alerta para “rota dos desastres”

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Na arquitetura do país, Paulo Mendes da Rocha é um divisor de águas. Foi o último brasileiro a vencer o Pritzker, maior prêmio da área no mundo, depois de Oscar Niemeyer, e a linguagem que ajudou a construir na chamada escola paulista serve de base conceitual na obra dos jovens arquitetos agora em voga.

Mas em seu escritório no centro de São Paulo, na véspera de abrir uma mostra de seus projetos, ele diz que esse estilo é “bobagem” e que o concreto virou o material-chave em sua obra por ser “belíssimo” como estrutura.

São de concreto aparente, aliás, os dois desenhos que desenvolve agora, o Cais das Artes, complexo com museu e teatro, em Vitória, e o Museu dos Coches, que está em fase de conclusão em Lisboa.

  Leonardo Wen – 31.mar.09/Folhapress  
Paulo Mendes da Rocha em seu escritório em São Paulo
Paulo Mendes da Rocha em seu escritório em São Paulo

Mostrando fotografias do canteiro de obras em Portugal, ele não esconde o fascínio pela proeza das máquinas e novas possibilidades de construção. Ao mesmo tempo, parece desapontado com o urbanismo atual no Brasil.

“Estamos aceitando uma rota do desastre em questões que são evidentes”, diz Mendes da Rocha, 82. “Falta projetar os desejos na forma de ensaios e perspectivas.”

No caso, ele desacredita dos planos para o centro paulistano. “Não é bom imaginar que essas áreas só se revitalizam com obras extraordinárias”, afirma. “Uma cidade é feita de comércio, habitação e vida do dia a dia, isso entra na frente de qualquer museu ou sala disso ou daquilo.”

Ele também se assusta com o avanço da especulação imobiliária. Um projeto seu, a galeria Leme, no Butantã, é vítima desse processo. Será demolida e reconstruída em novo endereço para dar lugar a mais um grande complexo de apartamentos e escritórios.

“Parece que o governo está de mãos atadas em relação à cupidez do mercado”, diz o arquiteto. “Verticalizar toda a cidade na matriz das velhas casinhas é uma estupidez.”

Na opinião de Mendes da Rocha, aliás, os avanços reais no mundo moderno parecem estar na cabeça das pessoas e não nas pranchetas.

Ele vê uma mudança radical de pensamento na forma como o homem lida hoje com a natureza, dizendo que “ninguém precisa se convencer de que o planeta é só um calhau desamparado no espaço”.

E nesse pedregulho ameaçado, ele segue construindo espaços. “Os projetos de um arquiteto são todos um só projeto”, diz Mendes da Rocha. “Um arquiteto não projeta para si, mas trabalha na ilusão de satisfazer desejos.”

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